Para algumas pessoas, a ideia de sonhar é abdicar da realidade, é renunciar ao senti- do prático da vida. Porém, também podemos encontrar quem não veria sentido na vida se não fosse informado por sonhos, nos quais pode buscar os cantos, a cura, a inspiração e mesmo a resolução de questões práticas que não consegue discernir, cujas escolhas não consegue fazer fora do sonho, mas que ali estão abertas como possibilidades.
Ailton Krenak, Ideias para adiar o fim do mundo (2019)

Parece impossível atravessar estes dias sem repensar o nosso lugar no mundo. Esta- mos no último mês de um ano atípico, de restrições a confinamentos, que não só expõe fracturas profundas (a falsa segu- rança onde assenta a vida moderna), como impele a uma adaptação dos vários tecidos sociais. E nesse sentido, a exposição “Lieu de Vie” de Zé Ardisson no Lado B da Galeria Balcony é também uma ode a tudo isto: à esperança e ao refúgio, lembrando o seu reverso - princi- palmente, se a metáfora do lugar nos servir para falar daqueles que o (des)habitam.
Ardisson apresenta aqui um conjunto de peças realizadas no último ano, assim como uma selecção de desenhos, marcando o espaço expositivo pela diversidade não só de materiais (desde objectos diversos do quotidiano a peças têxtil), como pela profusão da cor. Mas também sublinha estas tipologias do habitar: a cortina, o tapete, as facha- das das “casas da sua vida” contrastam com a precariedade hostil de um saco cama suspenso, na inviabilidade de tudo isto quando “não se tem meios”. Memórias, sonhos recorrentes, medos: elementos que percorrem os trabalhos do artista e contaminam as suas obras, conferindo-lhe uma natureza assumidamente biográfica. Lugares físi- cos e psicológicos das suas afeições, heranças familiares e desejos de criança rumo a novas geografias; às ondas e palmeiras de um destino paradisíaco. Mais do que (re)- contar eventos passados, descortinar uma verdade omitida por via da imaginação, falar da conjuntura presente, interessa operar novas lógicas de organização de cama- das de visualidade e misturá-las numa cadência de relações com ruídos de outra ma- terialidade, heterogénea, de sentidos imprevistos.
Será “Lieu de Vie” também palavra de ordem; uma ânsia sem saída, um rasto de lem- brança esbatida entre os contos e cantos dos avôs “acor- dai” e uma nostalgia pela infância dos dias de Évora, até Lisboa e Bali. Afinal, qual será o lugar de vida?
Se a exposição nos dá as coordenadas, então caberá a cada um de nós decidir fazer uso deste interregnum na possibilidade de afirmar a semântica da empatia, da soli- dariedade, do conhecimento e da democracia.


Carolina Trigueiros