BLACKBIRD (Melro)Zé Ardisson solo show
21 de Novembro de 2024 Dhara, Lisbon
Breathe with me this fear (which beyond night shall go) E.E. Cummings
Com uma forte vertente autobiográfica que já é comum no seu trabalho, Blackbird (Melro) recebe o seu título de um visitante habitual do quintal da casa de família do artista no Alentejo. Conta-nos o próprio que a sua mãe sofre de ornitofobia (fobia de aves) mas que tem um gozo imenso em ver este pequeno outro através do vidro, na segurança do interior – aqui temos o vidro a cumprir a sua função com excelência. A mãe de Zé Ardisson cantava canções de intervenção (os avós do artista faziam parte do coro de intervenção de Fernando Lopes Graça que musicou poemas de José Gomes Ferreira) para o embalar em pequeno, embora em algumas memórias desses momentos o artista encontre um rapaz assustado. São estes mesmos poemas que o artista agora usa como matéria transformável, quer pela tradução ou pela expressão gráfica com que os insere em vários pontos do seu trabalho. É de paradoxos como este – um desejo inadiável por algo que se quer longe – que se desenha o campo desta exposição-relâmpago, na tensão que existe ao trabalhar com a memória através de um vidro que afinal sempre foi placebo.
Há sempre uma obra que marca o nosso ponto de entrada para o trabalho de um artista. Seja porque nos identificamos no campo estético, porque a invejamos enquanto engenho conceptual (comum e pacífico entre pares), ou porque se apresenta enquanto mapa para todas as questões que o resto do trabalho coloca. Acontece recorrer a essa primeira peça, ainda que inconscientemente, no acompanhamento do percurso de um artista. A primeira obra do Zé Ardisson que encontrei como anfitriã para o resto do trabalho foi uma escultura chamada Meru que consistia numa maquete de um empilhamento de casas sobre um plano. Não só este tetris de casas sobre casas sobre casas referenciam as torres Meru em Bali, na Indonésia, onde o artista viveu, como, a um nível metafórico, me parecem indicar o resultado de uma acumulação por sobreposição de dias sobre dias, ou várias vidas sobre vidas. Este é um artista em que se nota uma permeabilidade total face ao mundo e aos seus impulsos. Em conversas de atelier partilhou comigo algumas das várias fases estéticas que explorou desde a infância até agora - muitas delas associadas a um desporto ou um ramo musical - e como entrar e sair delas lhe era natural e sem atritos. Como um electrão livre. À luz disto, e partindo destas impressões, pude ler neste corpo de trabalhos o resultado de uma particular disposição para a metamorfose que tem sempre como protagonista o próprio tornado que a causa, o ímpeto da mudança.
Em Fury (my favorite childhood memory is my back not hurting) 2024, encontramos uma coluna vertebral radicalmente móvel, ou extremamente adaptável, formada pela repetição de trucks de skate (como uma cintura de uma serpente?) colocada à altura expectada. Há algo em contacto com a dança, com o movimento. Nos trabalhos que pertencem ao ecossistema de Black Bird (Mélro), 2024, escultura formada na sua maioria por braçadeiras negras (presentes por toda a exposição), o artista faz uso de um material de construção cuja funcionalidade é o de forçar uma junção entre duas entidades-objecto paradoxalmente ao convocar nele uma forma de ouriço, de camada espinhosa e que impõe um afastamento. Tal como as braçadeiras, os alfinetes de dama são também dispositivos de união. Em Night of the great storm, 2024, onde braçadeiras substituem pinceladas, no lugar de tela temos um saco de cama, uma referência talvez à segurança do interior.
As projecções do mundo sobre estes corpos convocam-lhes uma estabilidade de rochedo contra as ondas. Todos sabemos que apenas 20% do fundo mar foi explorado. Há oceanógrafos que dizem que sabemos mais de Marte do que do dos nossos oceanos. O mar está para todos nós como o melro está para a mãe de Zé Ardisson, o medo está em não conseguirmos confiar nas vontades daquela massa, mas tal como a mãe do artista, algo misterioso nos chama a olhar para ele.
Ao percorrer este espaço as questões que me habitam rondam uma questão-mãe: se os dispositivos (vidros?) que nos separam dos nossos desejos são nossos aliados, o que é que se pode fazer com eles?
Isabel Cordovil
21 de Novembro de 2024 Dhara, Lisbon
Breathe with me this fear (which beyond night shall go) E.E. Cummings
Com uma forte vertente autobiográfica que já é comum no seu trabalho, Blackbird (Melro) recebe o seu título de um visitante habitual do quintal da casa de família do artista no Alentejo. Conta-nos o próprio que a sua mãe sofre de ornitofobia (fobia de aves) mas que tem um gozo imenso em ver este pequeno outro através do vidro, na segurança do interior – aqui temos o vidro a cumprir a sua função com excelência. A mãe de Zé Ardisson cantava canções de intervenção (os avós do artista faziam parte do coro de intervenção de Fernando Lopes Graça que musicou poemas de José Gomes Ferreira) para o embalar em pequeno, embora em algumas memórias desses momentos o artista encontre um rapaz assustado. São estes mesmos poemas que o artista agora usa como matéria transformável, quer pela tradução ou pela expressão gráfica com que os insere em vários pontos do seu trabalho. É de paradoxos como este – um desejo inadiável por algo que se quer longe – que se desenha o campo desta exposição-relâmpago, na tensão que existe ao trabalhar com a memória através de um vidro que afinal sempre foi placebo.
Há sempre uma obra que marca o nosso ponto de entrada para o trabalho de um artista. Seja porque nos identificamos no campo estético, porque a invejamos enquanto engenho conceptual (comum e pacífico entre pares), ou porque se apresenta enquanto mapa para todas as questões que o resto do trabalho coloca. Acontece recorrer a essa primeira peça, ainda que inconscientemente, no acompanhamento do percurso de um artista. A primeira obra do Zé Ardisson que encontrei como anfitriã para o resto do trabalho foi uma escultura chamada Meru que consistia numa maquete de um empilhamento de casas sobre um plano. Não só este tetris de casas sobre casas sobre casas referenciam as torres Meru em Bali, na Indonésia, onde o artista viveu, como, a um nível metafórico, me parecem indicar o resultado de uma acumulação por sobreposição de dias sobre dias, ou várias vidas sobre vidas. Este é um artista em que se nota uma permeabilidade total face ao mundo e aos seus impulsos. Em conversas de atelier partilhou comigo algumas das várias fases estéticas que explorou desde a infância até agora - muitas delas associadas a um desporto ou um ramo musical - e como entrar e sair delas lhe era natural e sem atritos. Como um electrão livre. À luz disto, e partindo destas impressões, pude ler neste corpo de trabalhos o resultado de uma particular disposição para a metamorfose que tem sempre como protagonista o próprio tornado que a causa, o ímpeto da mudança.
Em Fury (my favorite childhood memory is my back not hurting) 2024, encontramos uma coluna vertebral radicalmente móvel, ou extremamente adaptável, formada pela repetição de trucks de skate (como uma cintura de uma serpente?) colocada à altura expectada. Há algo em contacto com a dança, com o movimento. Nos trabalhos que pertencem ao ecossistema de Black Bird (Mélro), 2024, escultura formada na sua maioria por braçadeiras negras (presentes por toda a exposição), o artista faz uso de um material de construção cuja funcionalidade é o de forçar uma junção entre duas entidades-objecto paradoxalmente ao convocar nele uma forma de ouriço, de camada espinhosa e que impõe um afastamento. Tal como as braçadeiras, os alfinetes de dama são também dispositivos de união. Em Night of the great storm, 2024, onde braçadeiras substituem pinceladas, no lugar de tela temos um saco de cama, uma referência talvez à segurança do interior.
As projecções do mundo sobre estes corpos convocam-lhes uma estabilidade de rochedo contra as ondas. Todos sabemos que apenas 20% do fundo mar foi explorado. Há oceanógrafos que dizem que sabemos mais de Marte do que do dos nossos oceanos. O mar está para todos nós como o melro está para a mãe de Zé Ardisson, o medo está em não conseguirmos confiar nas vontades daquela massa, mas tal como a mãe do artista, algo misterioso nos chama a olhar para ele.
Ao percorrer este espaço as questões que me habitam rondam uma questão-mãe: se os dispositivos (vidros?) que nos separam dos nossos desejos são nossos aliados, o que é que se pode fazer com eles?
Isabel Cordovil